Como lidar com: "O seu filho tem que ser operado!"?

Agora que já passou e que já sabemos os resultados gerais deste processo, já consigo respirar e falar sobre isto. 
Escrevi este texto há um ano. Na altura não publiquei nada por várias razões. Não consegui encontrar forma de me abstrair daquele sentimento de impotência. Daquele aperto no coração por não poder evitar que o meu filho passasse por uma cirurgia. 
A verdade é que se trata de algo relativamente "simples" e extremamente comum para um cirurgião e não era tanto isso que me preocupava. Preocupava-me a reacção do meu filho a uma anestesia geral. O não saber o que podia acontecer naquelas horas em que ele estava inconsciente. E a cabeça de uma mãe (e pai) pensa demais. 
Por outro lado, estava reticente por partilhar algo da sua intimidade. No entanto, existem tantas situações destas que achei que devia partilhar a nossa experiência, a angústia natural que sentimos e a confiança que pusemos nas mãos dos médicos. 

Passou um ano. 

Nunca imaginei sentir-me assim, tão inútil e sem capacidade de fazer algo para corrigir o que está mal com o meu filho. 


Apesar de ser uma cirurgia comum e quase "rotineira" nos dias de hoje, como mãe, tudo é vivido com um sentimento de impotência tão grande que nos faz pensar em tudo o que pode acontecer se correr mal. 

O Vasco nasceu com criptorquidia bilateral. Isto significa que nenhum dos testículos estava no seu devido lugar na altura do nascimento. No segundo dia de vida do Vasco, foi visto pela pediatra do serviço de neonatologia do hospital e, com calma, informou-nos deste problema e acrescentou que nem sequer os conseguia palpar na zona inguinal (junto às virilhas).
Como pais, mantivemos o pensamento positivo e achámos que estavam apenas um pouco escondidos e iriam descer eventualmente, nos próximos tempos. Como é procedimento comum, foi marcada uma ecografia para ver se os testículos existiam e se iriam descer sozinhos. Felizmente existiam. Infelizmente, não iriam descer sozinhos já que, cada um tinha uma hérnia a impedir a sua descida.


A partir daqui, foi um turbilhão de emoções. Eu sou uma pessoa positiva e por isso, não comecei a sofrer por antecipação mas era impossível não ficar preocupada com as implicações desta situação. Nas consultas com o cirurgião pediátrico Dr. João Henriques fomos informados de tudo o que implica esta condição do bebé e tudo o que poderia acontecer durante a cirurgia, de positivo ou de negativo. Como esta cirurgia só deve ser feita entre os 12 e os 15 meses de idade, fizemos a nossa vida normal  como se nada fosse, até que nos ligaram a marcar o dia. Aí sim, fiquei ansiosa, preocupada e com medo que alguma coisa pudesse correr mal durante a anestesia.
Durante aquela semana estive irritada, nervosa e sem paciência para as coisas do dia a dia. Mas tendo um filho mais velho para dar atenção, acabei por me obrigar a abstrair deste assunto. 


Já no hospital, no momento em que o enfermeiro pegou no meu filho e o levou desabei. Não antes, só aí. Quando saiu do meu campo de visão, foi o pior sentimento do mundo. 

Mesmo sabendo que estava em boas mãos, senti um aperto tão grande no peito que me custava a respirar.
Chorei, o meu marido abraçou-me e não precisou de dizer nada. O abraço bastou para me acalmar e voltar a mim. Positiva.


O Vasco esteve cerca de uma hora e meia no bloco operatório e quando acordou confuso abraçei-o e tudo ficou bem. Ele estava bem, dorido mas bem. 

O cirurgião falou connosco e descansou-nos dizendo que tinha conseguido cumprir o seu objectivo. A enfermeira Teresa acompanhou o recobro do meu filho e foi incansável connosco e com o Vasco. 

Ainda bem que o nosso país tem profissionais ao mais alto nível, médicos e enfermeiros. Ainda bem que além de profissionais são humanos e preocupar-se com o nosso bem estar. 

Voltamos ao hospital para ver se as cicatrizes sararam bem e se estava tudo a correr como esperado mas sem saber se a cirurgia ia ser um sucesso duradouro. Só agora, passado um ano é que vi no rosto do Dr. João que está tudo a correr como é suposto. Ele estava satisfeito com a evolução do Vasco e eu respirei fundo, finalmente. 

Daqui a um ano voltamos.


Beijo

Comentários

Mensagens populares