Deixa-os ser

"Não se sobe por aí" diz uma mãe perto do escorrega. "Não consegues, vais cair" diz um pai ao lado das escadas. "Não te pedures aí", "Não saltes daí", "Não é assim que se faz"... ouvimos uma e outra vez no parque infantil. E o que eu adoro estas frases... nada!

Sou de acordo com a segurança, sim. Tenho dois filhos e não quero que nada de mal lhes aconteça. Se eu pudesse até os pequenos galos na testa eu tinha por eles. Por outro lado, são esse galos que os fazem conhecer os seus limites. São os pequenos arranhões nos joelhos que os ensinam o que é brincar em segurança.

Tenho dois filhos muito enérgicos, dois macaquinhos sempre aos saltos. 

O Vicente sempre foi muito desenrascado a nível motor. Nunca deu grandes quedas e é incrível a agilidade que ele sempre teve e como tão bem calcula o risco da proeza que vai fazer. Independentemente da idade, está sempre a tentar superar os seus limites no que toca a acrobacias. Agora, com cinco anos atravessa uma fase em que é quase incapaz de usar o material do parque infantil "como deve ser", tentando sempre inventar outra forma de brincar e elevar a dificuldade do desafio.

Coloquei aquelas aspas, porque a verdade é que o mundo à volta deles é para ser explorado como eles bem entenderem (sem ter que chegar ao extremo de partir alguma perna). As regras estão na nossa cabeça de adultos, porque fomos crescendo a perceber como é que afinal as coisas funcionam e porque, quando éramos crianças, também nos foram impostas essas mesmas regras. 
Digam-me porque é que uma criança não pode subir o escorrega pela parte de descer? A minha única condição é, se estiver uma criança para descer é essa que tem a prioridade e os meus filhos têm que esperar que as outras crianças desçam. Esta é a minha forma de lhes ensinar a tal regra, sem ter que os condicionar na sua actividade. Porque é que um bebé que já anda bem não pode tentar subir as escadas, ainda que com ajuda, em vez de ser pegada ao colo evitando o obstáculo e ainda recebe de bónus o belo do "não consegues"? Nem a deixaram tentar!

Assim, não é raro ver o meu filho pendurado em qualquer sítio. Um dia destes vai começar a subir às árvores e eu tudo bem... A sorte é que à nossa volta não há muitas daquelas robustas com muitos ramos. Sorte ou azar, depende do ponto de vista. Pelo menos era mais uma forma de testar os seus limites.

O Vasco por seu lado, segue as pisadas do mano, é muito desenrascado a nível motor e tenta de tudo. Ou não tivesse ele começado a andar com onze meses e a correr pouco depois... Já consegue dar uns pequenos saltinhos e adora trepar. Sobe sozinho pelo escorrega ou pelas escadas que vão dar ao escorrega. Sobe as mini colinas do jardim ao pé de casa e desce-as a correr e às gargalhadas. Para ele não são mini colinas, são mais altas do que ele que tem apenas palmo e meio de altura.

Quando estou com os meus filhos no parque tento estar atenta ao que estão a fazer para que não se magoem, e fico sempre mais perto do Vasco por ser mais pequeno e mais facilmente perder o equilíbrio. Perto mas sem ter que necessariamente o ajudar, a não ser que ele peça ou caso tenha calçado escorregadio. Em relação ao Vicente, confio muito nas suas habilidades porque já o conheço muito bem. Ainda assim, digo-lhe vezes sem conta para ter cuidado e pensar bem no que vai fazer.
Mas as frases dos pais que ouço constantemente fazem-me confusão pela forma negativa com que tentam cuidar dos seus filhos. E é com a melhor das intenções, sim.

Mas porquê esta preocupação extrema em segurança e na imposição das "regras"? Que adultos esperamos criar desta forma? Não será melhor dizer que estamos mesmo ali com eles, se precisarem de ajuda? Para que conheçam as suas capacidades, as suas habilidades físicas e não se limitem apenas aos conhecimentos intelectuais. E se a criança não tiver muita destreza motora não faz mal. Ela vai descobrir o seu limite e brincar como consegue. 






Na terça-feira à noite a nossa sala e sofá viraram centro de ginástica acrobática e trampolim, para os dois. O Vicente começou a fazer do sofá trampolim e o Vasco quis fazer igual. Com este cenário, os pais tiveram que se juntar à brincadeira para que nada corresse mal.
O pai tentava apanhar o Vicente em pleno vôo e eu tentava controlar as cambalhotas que o Vasco fazia ao descer pelas costas do sofá. Tivemos medo que algum se magoasse a sério, mas estávamos lá para eles. E sabem uma coisa? Divertimo-nos! E depois foi tudo para o banho.

Vamos tentar dizer menos "não consegues" e mais "tenta, eu estou aqui para te ajudar se precisares"?

Beijo

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