E agora são dois - a história

A nossa vida voltou a mudar há pouco mais de um ano atrás. Mas agora não foi apenas a minha vida e a do meu marido que mudou, foi também a no nosso filho. Há pouco mais de um ano atrás chegou outro bebé.


Já me perguntaram muitas vezes se a adaptação do Vicente ao bebé foi fácil e como está a ser a nossa vida com dois filhos. Por mais querida, calma e atenciosa que seja, a chegada de um bebé nunca será fácil para uma criança. Ainda que tenha momentos em que acha o bebé amoroso, tem muitos outros momentos em que sente ciúme e não vê nada positivo neste novo elemento que "invadiu" a sua casa.
A chegada de um bebé não rouba apenas a atenção dos pais, também altera rotinas, traz uma nova dinâmica ao núcleo familiar e rouba espaço que até aqui era só do mais velho. Por isso, é importante dar-lhe muita atenção, às vezes mais ainda do que costume, manter as suas actividades e rotinas dentro do possível. As rotinas são importantes para uma criança em desenvolvimento, dá-lhes estabilidade e sensação de segurança, e devem ser mantidas tanto quanto possível. Em teoria parece simples, mas na prática é mais difícil cumprir todos os conselhos ou indicações que recebemos das várias fontes à nossa volta. Como pais, devemos confiar nos nossos instintos sobre o que é melhor para os nossos filhos naquele momento.

Em relação à nossa experiência, posso dizer que o processo de adaptação começou bem antes do Vasco nascer. Quando soube que estava grávida decidimos, em casal, avançar com a nossa ideia de colocar o Vicente na creche quando fizesse os 3 anos. É uma boa idade para começar esta etapa e assim, ele iria adaptar-se a uma nova rotina uns meses antes do irmãozinho nascer. Por um lado, não queria que o meu filho pensasse que só tinha entrado na escola por causa do bebé, por outro, eu precisava de tempo para mim, para os meus compromissos e tarefas extra mamã antes da chegada do novo elemento, que iria voltar a tomar conta de todo o meu tempo.
E assim foi. Escolhemos uma escolinha perto de casa e com um ambiente acolhedor e em Setembro começou a nova etapa. O Vicente adaptou-me muito bem, porque na verdade, aos 3 anos a creche envolve muita brincadeira. [Só a primeira semana é que foi dura para ambos, ele ficava a choramingar quando o entregava à educadora. Normal. Quando eu chegava ao carro, chorava também. Mas perguntei-lhe porque ficava assim e do alto dos seus 3 anos ele respondeu-me: "Mamã, eu gosto da escola, as professoras são simpáticas, os meus amigos não me fazem mal. Mas eu tenho muitas saudades tuas..." E eu abracei-o e concordei com ele, também ficava cheia de saudades dele. A partir daqui correu bem, na segunda semana já nenhum de nós chorou.] Ele adorou o facto de poder brincar todo o dia com miúdos da mesma idade em vez de passar o dia inteiro com a mamã e meia dúzia de meninos e meninas que encontrava no parque infantil.

Entretanto a barriga começou a crescer e a dar o ar da sua graça por volta dos 6 meses e tentámos explicar-lhe o que estava a acontecer. Para uma criança desta idade é tudo muito abstrato e difícil de perceber, mas nada como responder com naturalidade e simplicidade às perguntas que ele ía colocando ao longo do tempo. Para nós e para ele, esta fórmula resultou e costuma resultar com a maioria dos temas confusos até agora.


Expliquei num post anterior que eu e o Vicente vivemos sozinhos durante a semana, desde sempre e por isso ele esteve sempre habituado à minha presença permanente e quase em exclusivo. Daí a maior dificuldade que ele teve em separar-se de mim, já no hospital e com um novo bebé nos braços. É um miúdo que sempre esteve muito ligado à mãe e ver a minha atenção partilhada com o irmãozinho não lhe agradou muito. O Vicente sempre foi uma criança tranquila, é compreensivo e atento e sendo muito irrequieto, tem uma personalidade calma.

Mas a chegada do bebé não foi fácil para ele, não foi amor à primeira vista e nem sequer à segunda. O meu filho percebeu perfeitamente que o bebé tinha chegado para lhe roubar a atenção que ele tinha da mãe, do pai, dos avós. 

Nos primeiros tempos, isto acontece mesmo que o tentemos a todo o custo contrariar. Eu relembrei algumas vezes as nossas visitas, até os avós, que o Vicente estava presente e que precisava ainda mais de ser reconhecido. Cheguei a dizer para cumprimentarem primeiro o mais velho e se envolverem na sua conversa, antes de correrem para ver o bebé, que fazia pouco mais do que dormir. Tudo isto ajudou o meu filho a não se sentir excluído ou esquecido nas primeiras semanas. Mas até nós, pais, tivemos os nossos deslizes e fazem parte. O cansaço devido à privação de sono retirou-nos algum bom senso e nem sempre conseguimos cumprir tudo à risca. Ainda assim, foi um menino muito meigo para o bebé e nunca agiu com maldade. Nós apenas notámos que ele se sentia ciumento com tanta atenção que o Vasco recebia das pessoas que nos rodeiam. Tinha momentos de euforia, saltos, falar mais alto, mandar brinquedos para o chão, tudo coisas normais de um rapazinho de 3 anos que precisa chamar a nossa atenção de alguma forma. 
Tentamos no início, tratar do bebé, adormecê-lo e passar mais tempo com o Vicente nas horas em que não estava na escolinha. Mas eu senti alguma dificuldade em conciliar tudo, a atenção ao Vicente, todas as tarefas de casa e o trabalho. Como estava a amamentar em exclusivo, o tempo livre era mais limitado e às vezes o Vasco exigia também mais colinho. O Vicente começou a afastar-se um pouco e a querer apenas a ajuda do papá naquilo que até aqui tinha sido quase sempre eu a participar, como as brincadeiras, dar-lhe banho, lavar os dentes, ler a história antes de adormecer... Ficava muito triste nos dias em que ele me recusava. Mas só podia explicar-lhe que às vezes eu também conseguia participar nestas actividades e outras vezes não podia, porque o mano tinha que mamar ou precisava do meu colinho para se acalmar.

E com calma fomos ultrapassando estes ciúmes, mostrei-lhe sempre que estava presente e atenta aos seus interesses e às suas conquistas. Apesar de o ter tentado incluir nas rotinas do bebé, a hora do banho, a muda da fralda, ele nunca se mostrou muito interessado em participar. Quando lhe pedíamos ajuda ele cumpria com satisfação, mas raramente tomava ele a iniciativa se incluir nesses momentos do Vasco. Foi mais desligado durante o primeiro ano do irmãozinho. Percebe-se, que interesse tem para um rapaz tão agitado um bebé que pouco mais faz do que chorar, comer e dormir?!
Fez "as pazes" comigo e em poucos meses voltámos a ser unha com carne, como nunca deixámos bem de o ser.

A grande mudança entre os manos deu-se por volta dos 12 meses quando o Vasco começou a andar [aliás, ele começou a andar aos 11 meses] e a querer interagir mais nas brincadeiras do irmão mais velho. Claro que o Vicente já lhe achou mais graça a partir daí. Agora já conseguem brincar, de forma limitada por causa da diferença de idades, mas adoram-se. E zangam-se. E perguntam um pelo outro quando algum deles não está.

Não é tarefa fácil cuidar de duas crianças, de dois meninos cheios de energia e irrequietos. O que um tem, o outro quer. Às vezes corre bem, outras vezes algum chora. Quando nasce o segundo filho, o trabalho aumenta, temos mais roupas para tratar, temos rotinas do mais velho para cumprir e rotinas do mais novo para acertar. É necessário dar a devida atenção a cada um deles, às vezes em exclusivo, sem o outro para interromper. É uma gestão diária. E ainda, a partir dos 6 meses do bebé começa toda uma nova rotina de alimentos para introduzir, com a chegada da introdução à alimentação complementar, que significa a partir de certo momento um refeição extra diferente da refeição dos restantes elementos da família. 
Se não é tarefa fácil cuidar de uma criança só, multiplicar essa tarefa por 2, 3 ou mais pode ser esmagadora. No entanto, isto nunca fez com que deixássemos de ter filhos, toda a vida houve famílias grandes e famílias pequenas e isso faz parte da nossa condição de humanos, dito de uma forma generalista mas muito positiva.

Os meus miúdos têm uma energia que parece inesgotável e eu chego ao final do dia estafada. Mas feliz. Tomámos a decisão certa em ter um segundo filho, e dar a cada um deles o presente que é ter um irmão enche-nos o coração. São ambos o nosso bem mais precioso e um amor que não se explica.




Beijo,
Rita

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